Comer pão faz mal?

Hoje em dia, quando pensamos em comer pão, frequentemente vem a dúvida: consumir ou não? Oferecer ou não aos nossos filhos?

Na verdade, atualmente, nossas dúvidas vão além da má fama que injustamente o pão tem em relação a “engordar”. E digo, injustamente, porque na realidade não existe nenhum alimento ou bebida que sozinho possa causar sobrepeso ou obesidade.

A obesidade se instala quando comemos mais energia do que gastamos, além de outros fatores relacionados, como a mudança de estilo de vida. Além dessa dúvida, hoje temos um outro mito em torno do pão, o glúten.

O glúten é uma proteína que se forma nos cereais, tais como como trigo, cevada e centeio. Trata-se de uma rede que se forma durante o processo de sova da massa, e na fermentação do pão, essa rede é responsável por segurar o ar formado e conferir a massa a textura esponjosa e macia que conhecemos.

Existem pessoas que de fato não podem consumir glúten. Os alérgicos e sensíveis ao glúten ou os portadores de doença celíaca. A doença celíaca é um erro do metabolismo

onde o intestino delgado é afetado quando se consome alimentos que contenham glúten, tais como trigo, cevada ou centeio. Em geral, estes casos acometem menos de 1% da população e para estes é preciso reduzir e às vezes eliminar o consumo de glúten, de acordo com o grau de intolerância.

Por outro lado, quando se fala de uma população saudável, não há evidência científica que endosse que um produto livre de glúten é mais saudável.

Mas o que perdemos se deixarmos de consumir glúten? Falando somente sobre a perspetiva de saúde, ao eliminar o glúten da dieta eliminamos todos os benefícios comprovados cientificamente que o pão tem na saúde, tais como:

  • Melhora o equilíbrio da flora intestinal;
  • Ajuda a reduzir os níveis de lipídeos no sangue;
  • Ajuda no sistema imunológico;

Eliminar o pão da dieta não é uma tarefa fácil, pois está presente na alimentação humana a milhões de anos e é considerada uma das principais fontes de energia da dieta.

Mas, além disso, ao eliminar o pão de nossa alimentação perdemos também uma oportunidade de consumir outros nutrientes importantes da dieta como vitaminas e minerais que são encontrados naturalmente nos pães ou são adicionados frequentemente para melhorar a qualidade nutricional dos mesmos. Um exemplo é a vitamina B2 ou riboflavina.

Essa vitamina é de suma importância para converter carboidratos, como os amidos, em glicose, e assim, poderá ser utilizada como fonte de energia para o organismo. Além disso, é antioxidante e ajuda a ter uma visão, pele e sistema nervoso mais saudável.

Os sintomas do consumo inadequado dessa vitamina são por exemplo fadiga, crescimento retardado em crianças, problemas digestivos, cansaço nos olhos, etc.

Se puder prefira pães enriquecidos com riboflavina em quantidades de 0,24-0,8 mg por 100mg de pão. Para entender o que essa quantidade significa, observe as necessidades diárias desta vitamina.

Em 1998, o Instituto de Medicina (IOM) estabeleceu o consumo diário recomendado de vitamina B2 (riboflavina):

Estágio de Vida

Idade 

Homens (mg/dia)

Mulheres (mg/dia)

 Crianças

 1–3 anos

0,5

0,5

 Pré-escolar

 4–8 anos

0,6

0,6

 Escolares

9–13 anos

0,9

0,9

 Adolescentes

14–18 anos

1,3

1,0

Então, por exemplo, uma porção pequena de pão (30g ou uma fatia de pão de forma) fortificada ou enriquecida com vitamina B2 pode oferecer quase um 1/3 da quantidade dessa vitamina que nossos filhos em idade escolar requerem por dia.

Em conclusão, se não houver diagnóstico para doença celíaca, o pão continua sendo um excelente alimento para os escolares.

Gaesser, G. A., & Angadi, S. S. Gluten-Free Diet: Imprudent Dietary Advice for the General Population? Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics,112(9), p. 1330-1333, 2012. doi:10.1016/j.jand.2012.06.009

De Pozo, S. et al. Evaluación del consumo de alimentos enriquecidos/fortificados en España através del Panel de Consumo Alimentario, Fundación Española de la Nutrición, 2010.

INSTITUTE OF MEDICINE. Dietary Reference Intakes for Thiamin, Riboflavin, Niacin, Vitamin B6, Folate, Vitamin B12, Pantothenic Acid, Biotin, and Choline. Washington, DC: The National Academy Press, 1998.